Uma crónica de José Luís Peixoto. O «Passageiro Frequente» da Volta ao Mundo.

O aniversário de Björn

Copenhaga deve ser uma cidade lindíssima. Ouvi dizer, nunca lá estive. De Copenhaga, conheci o aeroporto e o comboio rápido até Malmö, no Sul da Suécia. Cheguei à tarde e atribuí o pouco movimento à tranquilidade que existe, mundialmente, nas quintas-feiras. Mas, depois de um jantar de salmão e de uma noite de sono, chegou a sexta-feira. Na paisagem da janela do hotel, havia longos passeios de bicicleta à beira do mar Báltico, gelado, a queimar a pele do rosto. Havia também repartições públicas que funcionavam, ruas limpas e pessoas à procura de um sorriso. Sábado. Almocei salmão. Estava a aproximar-se a hora do debate em que ia participar na Biblioteca Municipal de Malmö.

Cheguei antes da hora. Também a biblioteca era Suécia: um edifício incrível, mistura de antigo bem preservado e de moderno com bom gosto. Milhares de livros em sueco, cestas de maçãs vermelhas disponíveis para quem quisesse. O debate começou. Eu e a tradutora dos livros do Lobo Antunes falámos baixinho sobre literatura portuguesa contemporânea. O público era composto quase exclusivamente por maiores de 70, que, no final, vieram falar connosco. Havia, no entanto, uma exceção. Sentada na última fila estava uma rapariga de cabelos vermelhos. Comecei a chamá-la por telepatia.

Funcionou. Esperou pelo momento certo e aproximou-se. Conversámos. Contou-me que trabalhava no Ikea (juro) e explicou-me que Malmö é uma cidade bastante pacata, onde o tempo passa devagar. Veio jantar connosco. Nessa refeição (salmão), fiquei a saber que o bibliotecário fazia windsurf no Báltico e que já tinha ouvido falar do Guincho. Depois da sobremesa, era sábado à noite.

A campainha, o elevador e chegámos à porta. Deixámos os sapatos num enorme monte de calçado.
Felizmente, tinha trocado de meias. Ajudei-a a descalçar as botas.

A rapariga de cabelos vermelhos disse que não havia grandes opções e perguntou-me se queria ir com ela à festa de aniversário de um amigo. Claro que queria. No táxi, houve aquele momento tradicional em que ela falou em sueco com o taxista e eu vi a paisagem: prédios. A campainha, o elevador e chegámos à porta. Deixámos os sapatos num enorme monte de calçado. Felizmente, tinha trocado de meias. Ajudei-a a descalçar as botas.

A rapariga de cabelos vermelhos apresentou-me a duas ou três pessoas. Sim, sou de Portugal, etc. Cada uma delas contou-me as suas relações, por mais ínfimas, com Portugal e, quando essa conversa se esgotou, convidaram-me para beber qualquer coisa. Na cozinha, abri o frigorífico cheio e percebi que havia um frasco onde se colocava o dinheiro de cada bebida consumida e, sendo caso disso, de onde se retirava o troco. Olhei para trás e, nas nossas costas, estava uma fila de rapazes e raparigas à espera para se servirem, cada um com a respetiva nota na mão.

Antes da meia-noite, cantaram-se os Parabéns ao aniversariante (Björn). O bolo era grátis. Comemos. Passavam uns 15 minutos da meia-noite e já quase toda a gente tinha saído. A rapariga de cabelos vermelhos estava na varanda a ter uma conversa séria com uma amiga. Não as quis perturbar. Tinha o nome do hotel escrito num papel e aproveitei um táxi que ia para os meus lados. Partilhei-o com dois rapazes que não abriram a boca durante todo o caminho. À chegada, com a calculadora do telemóvel, dividimos um número qualquer por três.

 

Texto de José Luís Peixoto