Mais de seiscentos quilómetros de estrada entre Tânger e Marraquexe com Fez pelo meio. Marrocos é muito mais do que isto, mas não seria nada sem as diferenças de cada uma destas cidades. É um país que se descobre a cada viagem.

A cidade mais visitada de Marrocos é um misto de história com luxo e modernidade. A sua praça mais famosa sai em todos os guias de viagem, mas há muito mais para conhecer, como os jardins, as mesquitas e a vida do dia-a-dia.

De Fez até Marraquexe a viagem foi longa, mas trabalho é trabalho. A primeira paragem dos quase 400 quilómetros de distância entre as duas cidades foi a meio da manhã em Ifrane, uma espécie de Suíça marroquina com chalets e pista de esqui nas proximidades. No inverno, no Médio Atlas, a neve permite esse tipo de aventuras. E nem o rei Mohammed VI, aquele que estamos sempre a ver sorridente nas fotografias dos edifícios abertos ao público, resiste à adrenalina. Ifrane vale pelo inusitado das suas construções europeizadas e pela possibilidade de passar a mão na estátua de um leão bem no centro da pequena cidade. Dizem que dá sorte, e nestas coisas convém não arriscar. Além de que mal não faz.

Seguiram-se cinco horas de viagem até um almoço tardio junto a Beni Mellal e chegada ao princípio da noite a Marraquexe para um merecido banho e um simpático jantar. Pelo caminho ficaram as cascatas de Ouzoud – paragem mais do que merecida – e uma quantidade de pequenas localidades onde há sempre um mecânico pronto a resolver qualquer problema, um restaurante à beira da estrada com uma deliciosa tagine de borrego ou de frangos que fazem lembrar codornizes, um talho com cabeças de carneiro expostas e uma loja onde se encontra tudo, de água a bolachas, de tabaco a telemóveis, passando por um sorriso sincero, um prolongado aperto de mão e dois dedos de conversa sobre Portugal, a crise, futebol e oportunidades de negócios a bons preços. À chegada a Marraquexe, a surpresa – foi a primeira vez que apanhei chuva numa cidade com uma média de quatro dias desses por mês. Nem isso impediu uma ida à sempre impressionante Praça Jemaa El-Fna.

Yves Saint Laurent apaixonou-se por Marraquexe e aqui se instalou. Descubra o seu universo no impressionante Jardim La Majorelle.

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Ficou para o dia seguinte o Jardim Majorelle, que já pertenceu ao estilista Yves Saint Laurent e hoje é alvo de romarias. Vale também a pena a ida ao Museu de Arte Islâmica, um passeio pelos Jardins de Agdal, onde as orquídeas reais sobrevivem ao lado da construção que em tempos serviu de harém ao sultão Moulay Hassan, e a incrível mesquita e Torre de Koutoubia (com oitenta metros de altura e construída no século XII), cercada por jardins de laranjeiras no centro da cidade. Está bem perto do mercado de Marraquexe, o sempre repleto souk onde tudo se compra e tudo se regateia com a promessa de um chá quente feito com a melhor menta. Há ervanárias, ourivesarias, sapatarias e fábricas de pão, corredores que parecem não ter fim, pequenas praças e ruelas labirínticas onde não entra a luz do sol. Há sempre qualquer coisa nova em cada visita.

A Torre de Koutoubia é o edifício mais fotografado de Marraquexe. Está a curta distância da Praça Jemaa El-Fna, o local onde tudo acontece. Na medina, as escolas corânicas também são motivo de interesse.

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Dois dias são suficientes para conhecer os pontos turísticos mais importantes desta cidade onde a terra é vermelha. Uma vida não chegaria para descobrir tudo o que por ali se passa. Religião, cultura, comércio, diversão noturna, homens que encantam serpentes, mulheres que encantam homens, dentistas ao ar livre, clubes de luta pela noite dentro, cenários de filmes de Hollywood, passadeiras onde ninguém tem prioridade, hotéis de luxo com história, cafés com esplanadas parisienses – há de tudo. Até um terraço com vista para a mais movimentada praça de África, a tal, a Jemaa El-Fna, onde tudo se passa quando as luzes se acendem, onde o fumo dos cozinhados se mistura com o som das flautas e dos tambores, com o gosto do sumo natural de laranja, com a visão do pôr do Sol alaranjado, com o calor seco dos meses de verão e com a força de cada memória lá vivida.

visitmorocco.com

Ficar

Hotel Hivernage
Situado na parte nova da cidade, a dez minutos a pé da Praça Jemaa El-Fna e de toda a agitação da medina. Áreas comuns onde o design contemporâneo se junta à tradição marroquina, quartos com nota alta para o conforto e terraço no último piso com vista para a Koutoubia, a imagem de marca da cidade.

Avenue Echouhada / Rue des Temples
(bairro de Hivernage) I Tel: (+212) 524 424 100
Quarto duplo a partir de 150 euros por noite
hivernage-hotel.com

De automóvel

Vai de carro? Então avie-se em terra. Contacte a sua seguradora e peça uma extensão do seguro automóvel para Marrocos para as datas em que vai circular no país. O processo é simples e rápido, se efetuado a tempo e horas. O valor varia de acordo com a companhia contratada e é fundamental – e obrigatório – para a entrada em Marrocos. Além da extensão, é positivo fazer-se acompanhar por uma carta, redigida em francês, com a indicação da matrícula, nome do condutor e dias em que estará a viajar pelas estradas do Norte de África, carimbada pela seguradora. Indispensável é o automóvel estar em nome de algum dos seus ocupantes – ou ter uma autorização do proprietário ou da empresa de aluguer de automóveis para circular por lá.

Alugar automóvel em Marrocos nem sempre compensa, já que normalmente é exigida uma fiança em dinheiro, além do aluguer diário que ronda os 50 euros para a gama mais baixa. À documentação já referida junte a carta de condução em dia e o passaporte com validade mínima de três meses e faça-se à estrada. Tarifa e Algeciras são os dois portos mais procurados por quem quer chegar a Tânger ou a Ceuta. Optemos pela primeira, Tarifa, com destino a Tânger. A tarifa ida e volta de ferry para um passageiro (condutor) e uma viatura, com a data de regresso em aberto, ronda os 290 euros. A viagem tem a duração de 45 minutos e o passaporte é carimbado a bordo pelas autoridades.

No desembarque, será tempo de tomar contacto com a realidade das fronteiras marroquinas. O processo de saída do porto pode ser demorado, mas com calma, educação e a ajuda dos solícitos funcionários aduaneiros todos os documentos serão preenchidos e aprovados pelas autoridades competentes. Fica o conselho de aceitar esta ajuda suplementar. A gratificação é opcional, mas expectável.

Na estrada

Conduzir em Marrocos não é nenhum bicho de sete cabeças. Basta cumprir a sinalização, respeitar os limites de velocidade, as indicações dos agentes da autoridade e estar atento quando circular no interior das localidades. À saída do porto, duas paragens estratégicas devem ser levadas em conta: numa caixa automática ou num banco para levantar//trocar dinheiro e na bomba de gasolina para atestar o depósito. O ideal é chegar a Marrocos com o carro na reserva. A diferença de preços compensa – o litro de gasolina ronda um euro, oitenta cêntimos para o gasóleo. Não se aventure na opção de comprar combustível à beira da estrada, os motores não estão preparados para a diferença de qualidade.

Nas grandes cidades, estacionar perto dos centros históricos pode ser um problema. Os veículos entram nas medinas, daí existirem parques de estacionamento não oficiais, geridos por homens vestidos com batas azuis. Um euro pode ser suficiente para garantir a segurança do seu veículo durante toda a noite. Quanto a táxis, há os petits (dentro das localidades) e os grands (para fora do limite urbano). Combine o preço antes de iniciar a viagem.

Texto de Ricardo Santos - Fotografia de Adelino Meireles/Global Imagens