Regressar sempre pela primeira vez

Uma crónica de José Luís Peixoto. O «Passageiro Frequente» da revista Volta ao Mundo.

Texto de José Luís Peixoto 03 Jan 2015

Passageiro Frequente

Com frequência, visitar um lugar onde já se esteve é mais difícil do que chegar lá pela primeira vez. Quando se aterra numa cidade inexplorada, olha-se para qualquer lado e tudo é novidade, a atenção está sempre apontada na direção certa, há sempre algo que a justifica. Na segunda vez, as paisagens já vistas trazem elementos novos, que precisam de ser tomados em consideração.
Até porque uma segunda visita costuma contrariar as impressões que se tinha, o que pode ser perturbador, sobretudo para aqueles que confundem já ter estado num lugar com conhecê-lo. Somos tão agarrados àquilo que achamos; acreditamos tanto nos nossos sentidos, na nossa perspetiva e no nosso julgamento. Após a visita de uma semana, estamos disponíveis para debater Nova Iorque. Se for preciso, temos convicção suficiente para contradizer o nosso interlocutor.
Mas será que em Nova Iorque é sempre primavera, como quando lá estivemos? Utilizo a primeira pessoa do plural por solidariedade entre turistas, não porque concorde com esse instinto. Na realidade, acredito que até duas pizas de pepperoni, daquelas que podem comprar-se à fatia no Lower East Side, são diferentes. Uma delas será necessariamente mais picante do que a outra. Ou, também pode acontecer que a nossa sensibilidade ao picante se tenha alterado.
A distância temporal entre a primeira visita e o regresso também tem bastante importância. Se visitámos Moscovo há vinte anos, é bom que tenhamos consciência de que, desde então, mudou a cidade, mudou a sociedade e mudámos nós. De certa forma, essa Moscovo de há vinte anos já não existe e, com muita probabilidade, nunca mais existirá.

Por um lado, noutro tempo, com outras condições, as cidades onde se foi feliz podem dececionar; por outro lado, as cidades de má memória podem ganhar bastante com uma nova oportunidade.

Há países onde essas mudanças são mais evidentes, a história deixou–as à vista, mas são um facto em todos os espaços, faz parte do senso comum. Nada e ninguém é tão estático que não evolua ou regrida. Por isso, viajar é uma tarefa infinita, que nunca se dá por concluída.
Os lugares podem ou não deixar vontade de regressar. No entanto, aquilo que não depende da nossa escolha tem a capacidade de frustrar essas impressões. Por um lado, noutro tempo, com outras condições, as cidades onde se foi feliz podem dececionar; por outro lado, as cidades de má memória podem ganhar bastante com uma nova oportunidade.
Pode acontecer que, à segunda vez, pareça que se está a visitar um lugar diferente. Como é possível que não tenha dado por x, y ou z? Essa não é só uma situação desagradável. Pelo contrário, é uma oportunidade de conhecer um pouco mais, de desvendar um pouco mais. Cristalizar uma ideia e procurar argumentos que a justifiquem, ignorando a realidade, é o oposto absoluto do ato de viajar.
Além disso, regressar a um lugar, a uma cidade, a um país, é a possibilidade de ganhar um espaço que também seja um pouco nosso: aquele banco onde nos sentamos sempre que vamos a Nova Iorque, aquele restaurante, aquele jardim. Custa estar aberto a mudar de opinião, mas essa é uma exigência da incrível diversidade do mundo e, já se sabe, muitas vezes, é preciso que seja difícil para que possa ser gratificante.

Crónica da edição de janeiro 2015 - n.º 243