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O fotojornalista português Daniel Rodrigues empreendeu uma travessia de África de bicicleta elétrica, para provar que é possível ir muito mais longe do que a porta do trabalho num meio de transporte limpo.

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A ideia nasceu-lhe – na verdade, estava lá implantada, no subconsciente, bem fundo, havia anos – depois de rever a série documental protagonizada pelo ator escocês Ewan McGregor e, sobretudo, depois da terceira época. Se nas primeiras o ator andara com o amigo Charley Boorman à volta do Mundo e de norte a sul até à África do Sul numa das mais potentes motas, agora subia a América do Sul e a América Central num protótipo elétrico assinado Harley-Davidsons.

“Foi aí que me caiu a ficha”, conta Daniel à Volta ao Mundo, já com alguns quilómetros (e muita chuva empurrada a vento) de África do Sul nas pernas. Tinha de fazer o mesmo, ele que vive de reportagens em modo free lance e publica regularmente no New York Times.

Fora, de resto, em trabalho para esse jornal que acompanhara uma empresa que organiza viagens de bicicleta que vira uma África diferente da que sempre o encantou, “desde os tempos do Rei Leão”, ri. “Percebi que a melhor forma de conhecer África é de bicicleta. Vais mais devagar do que num carro ou numa mota, tens mais possibilidade de conectar com as pessoas”.

África sempre foi o fascínio do fotojornalista e foi com uma fotografia da primeira grande aventura àquele continente que saiu da penumbra, vencendo o prémio World Press Photo. Portanto o desafio elétrico teria de ser através de África, até porque não encontrou registo de nenhuma outra expedição do género.

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Daniel passou meses a procurar parceiros e a estudar trajetos, burocracias, lugares, quilómetros daqui ali, caminhos de terra e alcatrão, sítios que garantiam o carregamento das baterias da bicicleta, meteorologia mais adequada (para ele e para as baterias), enfim, uma obra titânica, que o levaria do Cairo à Cidade do Cabo.

Até que o exército sudanês e os paramilitares que o apoiavam se pegaram de desamores e rebentaram com o país e os planos de Daniel, deixando, pelo caminho, um rasto de morte ao qual o Mundo parece pouco atento. “Em duas semanas tive de virar a rota que levou meses a construir”.

Decidiu arrancar da Cidade do Cabo, na África do Sul, para dar tempo ao tempo e aos senhores da guerra para que um entendimento reabra as fronteiras do Sudão. “A esperança é a última a morrer e faltam muitos meses até eu lá chegar e o que interessa é que abram as fronteiras”, conta, estimando fazer à roda de 80 a 100 quilómetros diários que só fará se as pernas deixarem.

“Apesar de ter tudo estudado, não quer dizer que cumpra rigorosamente”, porque tudo dependerá da condição física. “Isto não é nenhuma corrida e eu não sou ciclista, sou fotojornalista.”

Na bagagem leva quatro meses de treino intenso numa bicicleta normal, sempre numa velocidade pesada e a puxar acima dos 25 km/h. Comparando, aqui é muito menos puxado porque tenho assistência da bicicleta.”

E é importante que se fale dela também. É uma E850 Trekking da Beeq, uma das marcas que patrocina o desafio, e Daniel recebeu-a ainda em formato de protótipo. E escolheu-a por uma razão muito do coração: “Eu fazia questão que fosse 100% portuguesa”.

Agora, teme por ela. Ao virar a rota ao contrário, levou em cheio com o inverno sul-africano e sabe que vai ter de aguentar, quando entrar na Namíbia, com amplitudes térmicas nocivas para baterias. “Trouxe uma manta térmica para envolver as baterias durante a noite…”

Arrumado o “stresse” do envio da companheira de viagem para o ponto de partida e do seu desalfandegamento num país varado por burocracias, Daniel tem pela frente 14 mil quilómetros e dez países. África do Sul, Namíbia, Botsuana, Zâmbia, Malawi, Tanzânia, Quénia, Etiópia, o maldito Sudão e, por fim, sete meses depois, o Egito.

Dez países mais um: o Ruanda, para onde vai desviar para documentar um projeto que promove o acesso à energia limpa a cargo de outros dos patrocinadores, a EDP.

A viagem toda servirá, de resto, para “documentar vários projetos ligados à sustentabilidade” e contribuir para a luta contra as alterações climáticas. “Muita gente fala mas não age. Se eu conseguir atravessar África com uma pegada ecológica mínima, numa bicicleta elétrica, não há desculpa para quem vive numa cidade europeia não poder ir trabalhar num meio de mobilidade elétrica.”

A nós resta desejar a Daniel Rodrigues boa sorte – e boas pernas!

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