Há 50 anos, esta vila italiana cravada num vale plano entre montanhas da Alta Valtellina, região da Lombarda, ficava isolada por vários meses no inverno. Hoje, é uma estância de esqui em crescimento e um paraíso para ciclista de montanha nos meses mais quentes. A esta ilha, pedaço de Itália na Suíça, chega-se e já dela não apetece sair.

Texto e fotografias de Rita Machado

A história de Livigno funde-se com a dos seus habitantes. É sempre um pouco assim, mas aqui a afirmação tem significado especial. Se no passado recente os locais saíam, no inverno rigoroso, para procurar trabalho nos meses em que a vila ficava literalmente isolada pela neve (os homens na construção, as mulheres nas limpezas, regra geral para a Suíça, já aqui ao lado), hoje são os jovens que regressam, durante a época alta de verão e inverno, ou mesmo de forma definitiva no final dos estudos, para aqui residirem e trabalharem. É comum responderem-nos «sim, sou livigno», com orgulho no rosto e brilho no olhar. Há mesmo muitos locais a trabalhar nos negócios, que são frequentemente familiares, ao contrário do que é habitual observar em muitas das estâncias em que a mão-de-obra é em grande parte estrangeira.

Os habitantes de Livigno são da montanha, reservados e até um pouco «duros», mas olham os turistas de forma recetiva e são simpáticos e prestáveis, mesmo quando comunicam no seu inglês de cerrado sotaque italiano. Afinal foi este mesmo turismo de inverno, que começou a ser mais expressivo apenas a partir da década de 1970, que permitiu o crescimento da vila para o que se tornou hoje, um resort de esqui que tem vindo a crescer em dimensão e notoriedade. O site best-skiresorts.com colocou-o, no início da temporada 2016-17, em segundo lugar nos prémios de Best Ski Resort dos Alpes, na categoria de Feel Good, logo a seguir a Zermatt, numa votação na qual participaram quase 50 mil internautas entusiastas da modalidade. Nada mau para uma estância que teve o seu primeiro remonte mecânico em dezembro de 1969.

Duas estradas e um túnel

Faz 50 anos para o ano que o túnel Munt la Schera, que liga a Suíça à Itália, pelo lado norte da vila, terminou de ser construído. Atravessá-lo é ainda hoje um processo moroso, ele tem apenas um sentido (alternado por semáforos). Pode sentir-se alguma claustrofobia – na verdade, a primeira impressão que temos é a de que estamos num cenário de um filme da Segunda Grande Guerra, dentro de um bunker. Foi só com a abertura deste túnel, em 1968, que a vila começou a abrir-se ao turismo de inverno de forma mais expressiva – mesmo assim até há seis anos o túnel fechava durante a noite, entre as oito da noite e as oito da manhã, algo que o município de Livigno resolveu pagando um funcionário extra durante o dia, à concessão, que é suíça.

Até existir esta passagem, quando nevava (e aqui, devido aos 2250 metros de altitude, neva bastante), a vila ficava isolada. Por quantos meses, apenas a quantidade dos nevões ditava – a estrada para Bórmio nem sempre estava aberta e a para a Suíça pelo lado sul da vila ainda hoje fecha nos meses gelados, devido à grande probabilidade de avalanches, dado que se situa numa zona onde as montanhas não têm árvores.

Donato Cusini, 59 anos, proprietário de um dos mais de cem hotéis que a vila atualmente tem, resume: «Não há muito tempo, na minha geração, éramos uma vila muito pobre. A vida era muito dura.» A agricultura de feno e o pastoreio eram as principais atividades e no inverno sobrevivia-se com os enchidos, os queijos, as compotas de bagas e as roscas de pão seco que se cozia em fornos comunitários (o pão fresco estava reservado para datas especiais e casamentos) no final dos meses quentes. Não havia comércio praticamente nenhum, não passavam caixeiros viajantes de parte alguma e a entreajuda entre vizinhos era vital para a sobrevivência.

«O túnel foi muito importante, porque permitiu a entrada no vale durante o inverno. Abrimos este hotel, em 1975, como um pequeno bed & breakfast com oito camas. Chama-se Amerikan porque o meu avô, que esteve em Nova Iorque entre 1909 e 1921, foi dos poucos que voltaram à vila, chamavam-lhe O Americano», continua Donato. Em 1981 adicionaram uma pizaria, em 2002 renovaram as instalações e em 2015 construíram toda a zona de spa e mais andares com confortáveis, grandes e modernas suites.

Pela evolução deste espaço, podemos depreender o crescimento da vila: o gabinete de turismo regista atualmente cerca de um milhão de dormidas no inverno, e 400 mil no verão, o que para uma vila com cerca pouco mais de seis mil habitantes é imenso. Muitos destes habitantes são jovens, como os filhos de Donato, Elisa, 26, que estudou dança, e Davide, esquiador freerider, freestyler e instrutor de esqui. A história deles é também a de muitos
outros jovens da vila: estudaram fora, viajaram pelo mundo, mas regressaram e com vontade de ficar. Nesta temporada estão todos juntos pela primeira vez a trabalhar aqui no Amerikan. Quem regressa vem porque se quer dedicar aos negócios de família, desenvolver as oportunidades que a vila lhes dá e que não encontra noutras partes de Itália ou do mundo. Mas também porque sente falta do ar puro, gosta da montanha, desta imensidão de branco. «Sentimo-nos seguros lá fora. Livres», diz Elisa Cusini, que estima que 80 por cento dos jovens aqui regresse.

Vila plana

Livigno é o que se designa por uma vila de rua, no sentido em que se desenvolveu ao longo de uma rua principal, com as casas agrupadas e os terrenos nas traseiras destas, com comprimento até ao limite do início da montanha. Tal deriva da organização do trabalho no campo, e também para proteger das avalanches no passado – a última registou-se na década de 1950. Ainda encontramos muitas das suas construções típicas em madeira, chalets feitos com as árvores da montanha, ao longo de 12 km de um vale com um diferencial de altitude de apenas 100 metros – ou seja, a vila é praticamente plana, o que é muito prático para quem não faz do esqui a principal razão da visita.

Até há 50 anos a neve isolava esta aldeia incrustada entre a Itália e a Suíça. Agora é um enclave que atrai esquiadores e desportistas.

Sendo uma zona franca, as compras são outro dos apelativos para os turistas que vêm de Itália, de cada vez mais países do Norte e Leste da Europa e agora de Portugal. Toda uma zona pedestre convida a longos passeios e a comer numa das muitas pizarias e restaurantes de boa comida italiana – os preços não são exagerados, apenas tem de se estar atento ao vinho, com valores muito diferentes dos de Portugal.

No verão, fora da temporada de esqui, são os ciclistas de montanha que enchem as ruas. Organizam-se maratonas e triatlos, que usam não só as montanhas como o grande lago Laco di Livigno, que no verão ganha maior visibilidade, através dos muitos desportos que se podem praticar, como canoagem e paddle. A paisagem da vila, com as suas casas de madeira, altera-se dramaticamente do inverno – totalmente branca – para o verão – maioritariamente verde.

Neve nas montanhas

Nas montanhas que ladeiam a vila de Livigno há duas zonas esquiáveis separadas mas complementares. Carosello 3000, que tem como assinatura mountain is freedom, está preparada para os esquiadores médios e avançados (a maior parte das pretas está deste lado), para todos os freeriders e para quem gosta de aproveitar as zonas fora de pista – até existem algumas demarcadas. É aqui que existe o avalanche center, que todos os dias dá as previsões para quem gosta de esquiar de forma mais radical. É também deste lado que é possível fazer, às quintas-feiras, o fresh track: com um limite de pessoas, subir pelas sete da manhã para as pistas acabadas de preparar e descer ouvindo apenas o barulho dos seus esquis, sem ninguém à frente. Segue-se um pequeno-almoço de luxo, com um mega-buffet de ovos, salmão, enchidos típicos, sumos naturais, iogurtes da latteria da vila, e que termina com a rosumeda, uma bebida típica com café, açúcar, ovo e licor Marsala (tudo por €29 por pessoa).

Davide Cusini, o filho de Donato e uma celebridade do freeride (davidecusini.wordpress.com), acaba de implementar neste lado da montanha o projeto Ski Reload, destinado àqueles que sendo bons esquiadores ainda têm bloqueios mentais: «Destina-se a quem esquia bem mas ainda assim tem algum receio de bossas ou não está à vontade fora de pista. Durante duas tardes esquiam comigo, e vou mostrar-lhes novas e melhores maneiras de se divertirem na neve. Começou porque queríamos oferecer uma experiência mais radical, dado que as pistas em Livigno não são ultradifícieis», resume (até cinco pessoas, 99 euros).

Do outro lado da vila encontra-se a outra zona esquiável, Mottolino, que tem como assinatura mountain is fun. Aqui é um domínio mais acessível, com longas pistas azuis e vermelhas, mas muito bonitas, pois se o tempo permitir têm sol durante o almoço e a parte da tarde. O snow park é ideal para o snowboard e neste lado concentra-se a maior parte dos jovens.

Ambas as montanhas oferecem um total de 115 quilómetros de domínio esquiável, com 12 pretas, 37 vermelhas e 29 azuis, em ambos os lados do vale. Trinta meios mecânicos garantem acesso rápido entre elas. Raquetes de montanha, ski de fundo ao longo do vale, fat bike (uma bicicleta elétrica com pneus grossos para a neve) e escalada no gelo são algumas das outras atividades que aqui pode fazer, se não aprecia esqui ou snowboard. E como a maior parte dos hotéis está preparada para isso, há também vários spas para longas massagens.

Uma coisa está garantida: entre atividades na neve e na vila, Livigno tem muito para oferecer. Quem visita no inverno fica com vontade de voltar já no verão.


Guia de Livigno

Onde: Vale da Alta Valtellina, província de Sondrio, Região Lombarda, Norte de Itália, cadeia montanhosa dos Alpes
Moeda: Euro
Fuso horário: +1 GMT
Idioma: Italiano e Livigno – dialecto local. A maior parte das pessoas fala inglês e algumas alemão.
Quando ir: de dezembro a maio para esquiar. A época de esqui acaba tarde, a altitude de 3000 metros ajuda a manter a neve.

Ir
Livigno não é das estâncias mais fáceis de aceder. O ideal é voar para Milão e daí alugar um carro. A viagem, pelas estradas Strada Statale 36 do lago de Como e de Spluga e Strada Statale 38 de Stelvio, dura cerca de quatro horas, porque apesar de serem apenas 230 quilómetros, passa por várias vilas e cidades. A paisagem é, no entanto, bastante bonita e na ida ou no regresso pode aproveitar para dormir em Lecco ou visitar a bonita vila de Bellagio, no lago de Como. Certifique-se com a rent-a-car que a viatura tem pneus de neve e as respetivas correntes no inverno, pois vai necessitar delas. Se preferir um transfer, consulte aqui: ski-livigno.com
De junho a outubro, fora da época de neve, aconselha-se os programas de bicicleta na montanha e a caminhada. A 15 de setembro realiza-se o triatlo e a 10 de agosto a Notte Nera, altura quem se apagam todas as luzes da cidade e se acende uma gigante fogueira no centro.

Dormir
Hotel Amerikan ****
O Amerikan tem uma excelente relação qualidade-preço. Fica frente ao remonte n.º 10 de Carosello 3000, através do qual acede a toda a restante área esquiável da montanha. Faz parte da cadeia Bike Hotels, que presta serviços especiais aos ciclistas que chegam à vila no verão, como o de lavar a roupa durante a noite e tê-la passada ao acordar.
Via Florin 77/93.
Em março, quarto duplo com meia pensão: 109 euros/noite
hotelamerikanlivigno.com

Hotel Lac Salin Spa & Moutain Resort **** Superior
Ski in/ski out, aqui apetece passar os dias e não é por acaso que se chama ski e mountain resort. 900 m2 no spa Mandira, piscina, zonas lounge, um Ice Bar no final das pistas, um bar no interior, dois restaurantes, uma sala de fumo e charutos, é difícil não se sentir feliz aqui.
Em março: duplo a partir de 150-180 euros/noite.
Via Saroch, 496D
hotel-lacsalin.it

Comer
Na vila

La Calcheira
Recomendado por locais, está no meio da natureza do vale Federia e tem comida típica e caseira da zona. Pode pedir à carta ou experimentar um dos deliciosos menus, a preço mais convidativo: vegetariano, prova de várias pastas e carnes, ou de caça.
Via Federia, 3.
Preço médio: 25 euros (sem vinho).

Camino
O chef Luca Galli assume fazer «cozinha de território, com tradição, e revisitada com um pouco de fantasia e mix de ingredientes. As matérias-primas são sempre selecionadas e o preço é justo». As doses são generosas. Numa sala no piso inferior, é possível jantar totalmente às escuras, até 12 pessoas, numa experiência sensorial.
Preço médio: 40 euros (sem vinho).
www.hotelcamino.it

Carosello 3000
No cimo da telecabina n.º 12, é ideal para almoçar nas pistas. Boa vista panorâmica.
Preço médio: 15 euros
(sem bebidas).


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