Nos antípodas há uma cidade que combina vida à europeia com cheiro a novo mundo. Fomos conhecê-la por dentro através do quotidiano dos portugueses que lá foram.

Um bom viajante procura sempre o que lhe é próximo para perceber o que está distante.

Ir ter com os portugueses que vivem em Sydney aos locais que frequentam, aos bairros onde moram, reconstituir as suas vidas, do trabalho ao lazer, significa ter a autenticidade da «vida real» numa cidade que nos é estranha, que é sempre o que nos prometem e nunca cumprem os guias turísticos. Falar das dificuldades culturais e de adaptação que esses portugueses sentiram, na primeira pessoa, ao chegar, ao entrosar-se numa comunidade estranha, é conhecer o povo que é sempre outro, sem ser baseando-nos apenas em lugares-comuns e banalidades. Sydney é enorme – tem 4,6 milhões de habitantes, espalhados por uma área de 12 mil quilómetros quadrados e tem a particularidade de ser uma cidade inteira. Mas ninguém a vive por inteiro. «Adoro Bondi», diz, olhando para a praia que se abre sob o paredão, Isabel Ruivo, uma portuguesa que veio para Sydney em 1988 e nunca mais de cá saiu – mesmo as idas à terra-mãe têm sido escassas.

Bondi Beach é a mais boémia das praias de Sydney e o mar foi o que atraiu Isabel, uma tradutora profissional. «Foi o ambiente relaxado, o facto de não nos preocuparmos com que o que temos de vestir», explica Isabel. Aqui, no Novo Mundo, o state of the art é o cabelo oxigenado, os músculos bronzeados, as cores fortes, as havaianas nos pés e a prancha a tiracolo. Tudo parece muito saudável. Famílias inteiras de jovens são testemunhas da gentrificação de uma zona que já foi refúgio dos imigrantes neozelandeses, e, depois, dos judeus russos e do Leste Europeu, que aqui chegaram na altura da Segunda Guerra Mundial. A Austrália é terra nova, feita de colonos e imigrantes. Gente que para aqui veio, muita obrigada – o seu destino inicial foi ser uma colónica penal britânica, em 1788. Ainda hoje, a Austrália é feita de misturas e tensões. Entre estes novos habitantes e os que já cá estavam, os aborígenes – que continuam a ser um grupo étnico forte. E por todo o lado há sinais disso. Bondi, por exemplo, é um termo aborígene que significa a água a bater nas rochas.

A cidade mais populosa da Oceânia vive a vários ritmos: do surf e havainas em Bondi Beach às gravatas no CBD, zona financeira.

Sydney tem uma taxa de desemprego próxima dos cinco por cento e é a economia mais desenvolvida da Austrália. A prosperidade está visível em muitos bairros, e, por exemplo, na zona de Double Bay, que fica na contracosta do porto emblemático onde se situa a Ópera.
A melhor maneira de chegar aqui é de ferry, com o vento forte do mar, que aqui é mesmo oceano, a bater na cara. Simone Valente costuma vir de carro ou de transportes – o que é sempre fácil nesta cidade – abrir a sua loja de roupa, todos os dias, sábados também. Escolheu este bairro por ser o lugar ideal para o seu negócio.
«Este bairro é conhecido como Double Bay, double pay [dupla baía, duplo pagamento]», diz Simone. A sua clientela está entre as mulheres elegantes que vêm fazer compras à Cross St, a rua comercial do bairro, nos seus Bentleys, Porsches e Lamborghinis.

Sydney goza de prosperidade. Tem uma taxa de desemprego próxima dos 5% e a vida cosmopolita comprova-o.

O mar dá a toda a cidade uma atmosfera desempoeirada, mesmo se esta, um pouco snob, que se vive em Double Bay, é muito diferente da hippie Bondi Beach. Aqui os meninos fazem vela, não surf. Os restaurantes capricham na apresentação – menus, paredes, decoração, organização das mesas. E as lojas e boutiques caras sucedem- -se exibindo pormenores de bom gosto. As mansões substituem os prédios, e é aqui que está a igreja onde Elton John se casou (ficticiamente).


A mania da culinária

O MasterChef Australia é dos programas mais vistos na TV e criou uma legião de fãs da boa gastronomia. Apesar de não haver estrelas Michelin na cidade, há imensos restaurantes de luxo, outros tantos trendy e muitos chefs estrela com programas de televisão, livros e séries.


Sydney é cidade cosmopolita. Junta aborígenes, descendentes de ingleses e, hoje, muitas nacionalidades.

Simone Valente tem uma loja pequena e muito cuidada e vende roupa Ana Sousa, porque, explica, as australianas – as abastadas e as nem tanto – apreciam tudo o que é europeu, associam-no ao Velho Mundo e à qualidade. «Para eles o que é europeu é sempre excelente, ir à Europa é fenomenal», remata Simone. É nessa base que trabalham também Mariana Vozone e Sofia Pires que – além das suas ocupações habituais de arquiteta, mãe e diretora de marketing de uma multinacional de bebidas – gerem um site que importa material de design português e europeu, chamado Ubiety. «Tem sido um sucesso», dizem, depois de chegarem à chocolataria junto ao porto, jovens e giras, cabelos ao vento na Vespa de Mariana.

Mais de 25 ferries cruzam as várias baías da cidade e são o transporte mais rápido.

Em Sydney não há lugar que pareça mais massificado do que esta zona onde as duas amigas vêm lanchar e que se chama The Rocks. É o coração do que já foi um animado porto – em frente à famosa Ópera – e agora é apenas porto de recreio e de cruzeiros. Mas a globalização tem também uma face boa: é o caso do graffito que o português Vhils assina numa das paredes de tijolo industrial do porto – a convite da galeria do Museu de Arte Contemporânea.

A proximidade do mar, o seu azul intenso e limpo, faz que na zona de The Rocks tudo seja absolutamente bonito e incrivelmente confortável. Ainda mais quando visto do topo de The Observatory Hills com vista sobre o porto e a famosa ponte. É essa beleza natural e paisagística que Ricardo Gonçalves diz tê-lo conquistado em Sydney. «No espaço de uma hora conseguimos estar num centro urbano moderno, numa praia, num parque, a fazer uma caminhada, num local sem pessoas, num porto. É uma cidade urbana e rural», diz o engenheiro informático que adora a cidade que escolheu para ser a sua – ainda antes de ter começado a crise em Portugal.
Uma tendência a observar em Sydney é a da gastronomia. Causa e consequência disso é o programa MasterChef que aqui ganhou um êxito planetário. A lusodescendente Christina Baptista chegou ao top 10 do último MasterChef australiano.

A zona à volta da Ópera é a mais turística de Sydney.

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E nessa senda apareceu o primeiro restaurante português de primeira categoria em Sydney – o Chiado. Sandra Robinson, a sócia, explica assim o sucesso da casa: «Há uma cultura enorme em Sydney para sair, ir jantar fora. E até nos pequenos-almoços, os brunches
O sucesso do Chiado, com o jovem chef português Ricardo Dias Ferreira aos comandos da cozinha, chegou a todas as publicações trendy de Sydney – e existem às dezenas. Os australianos estavam mais habituados ao frango assado português vendido no bairro popular de Petersham, onde se concentraram os emigrantes dos anos 1960 e 70 e as vendas de frango, cerveja Sagres e bacalhau.


O surf: uma longa história
Em Sydney faz-se surf desde 1915 – por influência de alguns havaianos que aqui encontraram ondas de sonho. Hoje, as praias são viveiros de surfistas e é possível escolher as ondas que mais agradam a cada um entre a mais famosa Bondi Beach, Cronulla, Dee Why, Manly ou Narrabeen.


«Não é que lá não seja bom… mas nós fazemos pratos portugueses com uma forma moderna», diz Sandra, cheia de orgulho. A ideia de abrir um restaurante português interessante foi dela, depois de ter exercido advocacia durante 15 anos. Sandra chegou à Austrália em 1987, seguindo os pais que vinham em busca da vida melhor que depois conseguiram dar às filhas. Mas isso sem perderem as origens. Em Potts Point, primeira morada do Chiado, abriu o Mr. Crackles, uma casa que poucos sabem, mas tem Portugal e a gastronomia portuguesa na sua base. Carlos Justo inventou uma sanduíche de porco que é um sucesso entre os passantes por estas ruas que de dia se enchem de comércio e, à noite, de boémia – em frente está a sex-shop Fetich.

Nos montes do Observatório vê-se o melhor da cidade: o mar, a arquitetura, e a natureza em harmonia.

Nas montras deste fast food gourmet – mais uma moda internacional com forte presença – há batatas-doces, grão-de-bico e feijão. Além do leitão tostadinho que depois acaba em sanduíches que saem a alta velocidade. Carlos tem 39 anos e há muito tempo que queria fazer a «comida boa», que aprendeu com os pais. «Não queria ter um restaurante fino, queria ter comida confortável. Aqui, é fácil fazer comidas novas, as pessoas têm a cabeça aberta», diz Carlos. E do que está a falar? Do courato português. Que faz Sydney comer e chorar por mais.


Dicas:
Sydney é uma cidade bastante segura e… grande. Mesmo que fique pouco tempo, não se fique pelos lugares mais óbvios – avance para além do The Rocks ou mesmo do CBD – Central Business District. Vá até às praias – há combio/metro até lá. Conheça os bairros residenciais de Double Bay, Glebe, Newtown ou Petersham. Fique a ver gente em Paddington ou Darlging Hurst.

Ir:
É preciso um visto eletrónico (tirado na internet, e não deve efetuar reservas de passagens aéreas nem assumir compromissos de viagem até receber um visto de entrada na Austrália). Não há vôos diretos, mas todas as grandes companhias voam para Sidney, praticamente com apenas uma escala. Os voos Lisboa-Sydney-Lisboa – para janeiro a março do próximo ano estão a um preço médio de 1900 euros na Lufthansa, 1300 euros, pela Air France, 1200 euros na Emirates, 1400 euros na KLM, 2300 euros na British Airways.

Texto de Catarina Carvalho - Fotografias de Vlad Sokhin